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Serviços são cruciais para crescimento do Open Source PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Quarta, 06 Fevereiro 2008 15:20
As aplicações e os serviços existem mas têm de ser mais divulgados para que o open source se materialize como alternativa viável para as empresas


Depois de muitos anos em que as empresas olhavam para o open source com desconfiança, a adopção de soluções open source está a crescer de forma sustentada, e Portugal não é excepção. Dos servidores Web ao desktop e software de produtividade, o open source começa a ser considerado uma alternativa viável pelos sectores privado e público, onde são cada vez mais notórios os exemplos de boas práticas na integração de soluções abertas e na interoperabilidade com software proprietário.




Os números divulgados pela IDC Portugal no início deste ano indicam que 22 por cento das organizações portuguesas já aderiram ao open source, subindo essa percentagem para 81%, no caso das companhias que se integram no sector económico das telecomunicações, transportes, utilities e media. O estudo «Open Source & Linux: Caracterização do Mercado em Portugal, 2006» revela que entre as vantagens apontadas pelas organizações para a utilização do open source contam-se a redução de custos de licenciamento de software e a independência face aos fornecedores, mas os inquiridos apontam também desvantagens, nomeadamente, no desconhecimento técnico e disponibilidade interna e externa para explorar a plataforma.

A maturidade das soluções, a entrada de grandes players neste mercado e o apoio claro de empresas como IBM, Oracle, Google e Sun Microsystems têm vindo a garantir esta evolução gradual do open source e a contribuir para a menor desconfiança por parte dos segmentos não técnicos, já que estas soluções tendem a ser vistas como complexas e adequadas apenas a utilizadores muito especializados. Paulo Vilela, director de Desenvolvimento de Negócios e Marketing da Sun, afirma que esta evolução demonstra que o software open source passou de uma área marginal para o mainstream.


«O conhecimento do que é o paradigma do open source tem evoluído. Os receios de se estar perante ‘um modelo de negócio não sustentável’ esvanecem-se e caminha-se para a postura pragmática e saudável de reconhecer as vantagens e desvantagens desta via de solução», acrescenta Luís Arriaga da Cunha, director do Centro de Investigação em Tecnologias de Informação da Universidade de Évora, responsável pelo desenvolvimento do Alinex, um sistema operativo Linux. Esta realidade é reconhecida de forma geral pelos profissionais que actuam nesta área, comercializando aplicações de base open source ou especializando-se em serviços.

Rui Ribeiro, professional services manager da Sybase, admite que são cada vez mais as empresas portuguesas que adoptam plataformas open source. «A desconfiança passou a teste, e o teste passou à adopção, pois, em termos gerais, percebeu-se que existem já plataformas bastante robustas e estáveis capazes de trazer um verdadeiro valor acrescentado às empresas».

A mudança está a ter impacte directo no negócio das empresas, que vêem cada vez mais justificado um modelo de negócio que parecia não ter futuro há poucos anos. É o caso da iPortalMais que trabalha com soluções open source desde 2000. «No início da  actividade, a abertura das empresas para usar open souce não era nada igual aos dias de hoje», admite Raul Oliveira, director-geral da iPortalMais.


«A diferença que existe entre Maio de 2000 e Dezembro de 2007 é que antes éramos nós a convencer o cliente para usar soluções open source, e hoje são os clientes que nos procuram para adquirirem esse tipo de soluções», adianta o mesmo responsável, explicando que no caso específico da iPortalMais a maior maturidade das soluções – que passaram de um estágio primitivo e baseado em instalações e configurações manuais do Linux Debian, para uma automatização da instalação e uma simplificação das configurações baseadas na IPBrick – também contribuiu de forma positiva.

A estes factores acresce o maior conhecimento de técnicos integrados nas organizações nacionais. «Há um maior número de organizações nacionais a optar por este tipo de software devido a possuírem o conhecimento interno suficiente para poderem fazer essa avaliação sem a desconfiança de outrora», reconhece Diogo Rebelo, director-geral da DRI.

Na comparação internacional, Portugal não está, ainda assim, entre os países mais dinâmicos, ficando até mal colocado em relação a outros países europeus. João Batista, director-geral da Novell, traça o retrato mundial favorável ao open source, indicando que «o continente europeu é de momento um espaço onde a utilização do Linux se tornou bastante agressiva», mas reconhecendo que, «infelizmente, Portugal não tem acompanhado o crescimento global».


Adesão transversal


O conhecimento técnico e uma maior maturidade da gestão são mais relevantes para desenhar o perfil das empresas que adoptam open source do que propriamente a área de actuação ou o tamanho. Paulo Trezentos, investigador da ADETTI e partner da Caixa Mágica, uma empresa criada na sequência do desenvolvimento da distribuição de Linux com o mesmo nome, admite que a adopção é transversal, acontecendo nas PME e nas grandes empresas, pelo que é difícil generalizar.

Rui Sousa, director de Software Development da Westix-TI, arrisca dizer que, se em 1995 o open source era uma opção para “carolas”, em 2000 já era uma tendência, «principalmente, ao nível das grandes organizações, que desalojavam as onerosas licenças de Unix e de Windows para as substituírem por sistemas open source». O responsável admite agora que esta é uma «opção cada vez mais usada pelas PME», sobretudo, «as que, pela sua estrutura hierárquica mais horizontal, têm maior poder de inovação».

Também é nas pequenas e médias empresas que Gustavo Homem, director técnico da Ângulo Sólido e presidente da Associação de Empresas de Open Source Portuguesas (ESOP), reconhece maior propensão para usar estas soluções, «porque têm maiores restrições orçamentais e maior flexibilidade na tomada de decisões». A ideia é partilhada por Francisco Moura, administrador da Eurotux, uma empresa que se posicionou como fornecedor de software e serviços open source, que aponta os constrangimentos orçamentais como um dos motivos para a adopção de open source.

Pelo contrário, João Batista, director-geral da Novell Portugal, afirma que são as companhias de maior dimensão que beneficiam mais significativamente do baixo custo do Linux e da flexibilidade que oferece. «As companhias de maior dimensão tendem também em estar mais confortáveis na gestão de diferentes sistemas operativos», explica. No entanto, não deixa de reconhecer que as companhias de média e pequena dimensão também podem beneficiar das vantagens do Linux. Para este segmento, a Novell criou um bundle chamado Novell Open Workgrup Suite baseado em Linux, que inclui sistemas de colaboração (e-mail), gestão e segurança, necessárias ao funcionamento regular de uma infra-estrutura de IT. Já em Outubro, a empresa lançou uma versão small business de fácil instalação, cujo modelo de negócio passa pela comercialização através de parceiros.


Boas práticas na Administração Pública


A Administração Pública central e local tem vindo a mostrar diversos projectos bem sucedidos de adopção de soluções open source. Os dados da IDC apontam para a utilização de Linux por 32% das organizações, mas ainda de forma pontual. Muitos dos casos estão retratados num repositório online criado para o efeito, onde se descrevem projectos e se tentam partilhar boas práticas para não cair em duplicações desnecessárias. O portal está ainda em desenvolvimento e é promovido pelo Gabinete do Plano Tecnológico, contendo já alguns casos mais relevantes.

Sónia Casaca, sales manager da subsidiária portuguesa da Magirus, aponta a resolução 66/2004 – onde é recomendado ao Governo a tomada de medidas com vista ao desenvolvimento do software livre em Portugal – e a agenda do Plano Tecnológico como bons exemplos da predisposição da Administração Pública para aderir ao open source.

Também João Neves, sócio-gerente da Intraneia e presidente da Associação de Software Livre (Ansol), reconhece ter tido vários pedidos da Administração Pública de projectos que permitirão uma avaliação de implementações mais alargadas. «Neste momento, a principal preocupação é garantir a capacidade de manter os sistemas com o pessoal interno, de modo a garantir o funcionamento, independentemente de ciclos orçamentais», explica.

Rogério Cristo, senior certified IBM IT architect e membro do Technical Experts Council da IBM SPGIT (que abrange Espanha, Portugal, Grécia, Israel e Turquia), sublinha também que na Administração Pública o crescimento do open source tem sido constante e sustentado. «Existem óptimas experiências, quer ao nível da Administração Central quer ao nível da Administração Local. Também aqui se verificam as mesmas diferenças e motivações sentidas na comparação PME e grandes empresas», garante.

Luís Arriaga da Cunha, da Universidade de Évora, critica no entanto o facto de não existir da parte da Administração Pública «uma estratégia clara ou coerente relativamente à adopção de software livre, como se verifica em tantos países e é recomendação da Comunidade Europeia».

«Parece ter-se preferido um liberal ‘laisser faire, laisser passer’, invocando que os mecanismos de mercado e da competição livre e transparente farão vingar as melhores soluções», adianta o director do Centro de Investigação em Tecnologias de Informação, sublinhado que «seria grave não percebermos que Portugal, relativamente à problemática do software livre, tem na Europa (e se calhar do Mundo) uma posição sui generis». O mesmo responsável acredita que «a influência de grandes casas de software proprietário nos níveis de decisão de topo da Administração é marcada», apontando a posição oficial relativa ao OpenXML e no arranque da iniciativa e-Escolas como maus exemplos.

Luís Arriaga da Cunha não deixa, porém, de referir que existem também excepções «que deveriam servir de exemplo», como o ITIJ e «iniciativas louváveis», como o evento recentemente organizado pelo Plano Tecnológico e pela UMIC.

Por outro lado Rui Sousa, da Westix-TI, afirma que «existem jogos de influência junto dos decisores governamentais e das grandes organizações não-governamentais que visam incentivar a adopção de opções menos eficientes, o que conseguem geralmente através de métodos pouco transparentes e raiando a corrupção», o que não acontece apenas nas TI.

Admitindo também a existência de más práticas, Paulo Trezentos, partner da Caixa Mágica alerta para o facto de «os piores casos são aqueles em que se adquire software sem critério e sem analisar alternativas, onerando o budget de IT e criando dependências de terceiros».


Serviços a crescer


A área dos serviços de suporte e integração de soluções é normalmente apontada como uma das falhas para o desenvolvimento do open source. As empresas da área têm tentado desmistificar este conceito e uniram-se este ano para a criação da ESOP, uma associação que representa os interesses do sector em Portugal e que conjuga companhias que geraram em 2006 receitas na ordem dos 1,8 mil milhões de dólares. Gustavo Homem, presidente da ESOP, garante que «não existe falta de serviços mas sim falta de percepção da sua existência», uma área onde é preciso melhorar e que é uma das metas da ESOP.

«A área de serviços ou, se preferirmos, a disponibilidade de pessoas com conhecimentos, é sempre uma questão que coloca alguns entraves quando se fala na adopção de uma nova tecnologia ou paradigma», reconhece Rogério Cristo, senior certified IBM IT architect, que lembra que se assiste ao surgimento, nesta área, de novas empresas de serviços e de novas ofertas das empresas já estabelecidas. «A dinâmica existe, embora ainda não seja possível cobrir todas as necessidades».

Sem fazer avaliação da qualidade, Diogo Rebelo, director-geral da DRI, admite porém que os recursos especializados em open source ainda não existem em quantidade no mercado, pelo que subsiste a lei da oferta e da procura. Por isso, ainda são caros e o recurso não compensa às PME. «Creio que a solução está no incremento da formação, para que haja mais oferta no mercado», adianta.

Luís Arriaga da Cunha também acredita que esta é uma área ainda a desenvolver mas que a situação está a mudar. «Existem já empresas, algumas grandes nomes da nossa praça, outras pequenas empresas, com quem se pode contratar estes tipo de serviços, e o seu número é crescente. Aliás esta área de actuação é uma interessante oportunidade para empreendedores que começa a ser explorada», alerta.

João Batista, da Novell, sugere que os integradores portugueses deverão ter uma política agressiva na forma como se posicionam nesta área, porque considera que as necessidades de integração e suporte no open source são uma realidade.

Para Francisco Moura, da Eurotux, é também preciso que nas empresas seja desenvolvida capacidade de intervenção local, de especificação, de análise de arquitectura e de caracterização de custo total de posse face ao nível de qualidade de serviços. «Isto implica formação e sobretudo autonomia, pois nota-se que, por vezes, existem competências internas mas a hierarquia não permite decisões de baixo para cima», explica.


Clique aqui para ver o texto integral da entrevista.
 
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