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O Alinex e "o estranho modelo de negócio do software livre" PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Segunda, 12 Março 2007 18:15
O Alinex no portal i-gov.org

Defensor convicto das plataformas de software livre, Luis Arriaga da Cunha é um dos responsáveis por um sistema operativo open source desenvolvido em Portugal, o Alinex. Em entrevista ao iGOV, além do caminho percorrido e das perspectivas futuras do Alinex, o professor da Universidade de Évora faz uma análise crítica à adopção do software livre na AP.



Um dos potenciais alvos da aplicação do Alinex é a Administração Pública. Pensa que será fácil convencer os seus responsáveis a optarem pelo software livre?



O software livre é já amplamente usado na Administração Pública Portuguesa (AP). Veja-se, por exemplo, o sítio http://softwarelivre.citiap.gov.pt/, repositório de conhecimento em software livre das entidades do Estado Português. Pense-se no 1º Encontro de Software Livre na Administração Pública que decorreu na Torre do Tombo em Lisboa, em finais de Novembro de 2006, com organização do Plano Tecnológico nacional, dos Ministérios da Cultura, da Justiça, da Educação, da UMIC e da Torre Tombo, onde aliás o Alinex foi referido. Ou atente-se, por exemplo, à criação, na UMIC, de um Grupo de Trabalho em Software Livre.



Na maioria dos casos, a adopção de software livre verifica-se, no entanto, não por existir uma estratégia coerente a nível nacional, mas por reconhecimento, por parte dos responsáveis “das informáticas” das organizações, das vantagens desta via de solução. A nível de servidores e software de base, por exemplo, a penetração do Linux é muito importante e claramente crescente, embora pouco “visível”.



As áreas dos “postos de trabalho”/ferramentas de “office”, onde “se move o Alinex”, e das bases de dados de informação contabilística e de vencimentos (que são curiosamente vistas, na AP, como “core business”), temos noção de serem as de mais difícil implantação para o sofware livre. Mas mesmo aí, a qualidade de algumas soluções de software livre, malgrado a enorme resistência à mudança, é real e irá inevitavelmente ser reconhecida.



Temos consciência de que muitos dos decisores de topo se debatem ainda com a angústia de “com quem assino o contrato de manutenção?” ou têm de facto um desconhecimento profundo deste “novo e estranho modelo de negócio” em que o software não tem custos de aquisição e é mantido por uma comunidade mundial “de boas vontades”. Mas esta situação está em evolução rápida. Encontramos já no nosso mercado empresas de elevadísssima reputação capazes de fornecer e dar apoio contratado a soluções de software livre. Por outro lado, começam a surgir profissionais com competências certificadas nestas áreas, que poderão incutir confiança aos decisores para optarem por open source software.



Com estes factores envolventes e num contexto de contenção de despesas e de preocupações crescentes com segurança, será inevitável que o software livre se torne uma via a ser tratada nas aquisições do Estado, pelo menos em pé de igualdade com soluções proprietárias.



Há já conversações com órgãos da Administração Pública, tanto Central como Local, tendo em vista a aplicação do Alinex?



O Alinex está, desde 2006, disponível em todas as salas TIC das escolas secundárias do nosso país. Este projecto resultou de uma colaboração entre a Universidade de Évora e o Ministério da Educação, através do CRIE (Equipa de Missão Computadores, Redes e Internet na Escola). A iniciativa 'Escolas, Professores e Computadores Portáteis', que abrange um universo de algumas dezenas de milhares de portáteis, consigna a disponibilização do Alinex como sistema operativo, funcionando sobre máquinas de vários fornecedores.



Temos mantido, por outro lado, contacto com a Administração Local, nomeadamente com a AMDE (Associação de Municípios do Distrito de Évora) e com a Câmara Municipal de Évora para análise da oportunidade de utilização do Alinex e soluções de software livre. A própria Universidade de Évora tem em curso um estudo aprofundado sobre a adopção generalizada, dirigida aos seus públicos científicos a administrativos, do Alinex e de soluções open source software. Temos além disso em curso um conjunto de visitas e interacção com escolas para promoção da Universidade, onde o Alinex constitui o foco das apresentações.



Alinex no Congresso das Comunicações

E em relação aos estabelecimentos de saúde, há já alguma coisa em andamento?



Relativamente à área de saúde posso referir que foi estabelecido um protocolo com uma empresa que disponibiliza soluções neste domínio, quer para o mercado português, quer para os PALOP's, com o objectivo de certificar os seus produtos sobre Alinex.



Vem a propósito mencionar que uma das vertentes do Alinex corresponde à disponibilização do que chamamos “kits”. Isto é, CD/DVD's com o sistema operativo e um conjunto de programas, certificados sobre Alinex e “prontos a usar”, que respondem a uma área concreta de negócio. O primeiro kit foi o kit-Educação das salas TIC, mas vários outros estão em preparação como sejam o kit-PME's, kit-AdminLocal, kit-Saúde, kit-Jogos, kit-Lite (para máquinas antigas com pouca capacidade), kit-Servidores, kit-ThinCients, etc.



Falou-me em parcerias com empresas locais. Como seria o modelo de negócio? O facto de serem locais, pressupõe aqui uma aposta clara nas Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia e ainda com outros órgãos do poder local?



O projecto Alinex ultrapassa, como será fácil de entender, a mera disponibilização de um sistema operativo livre. Em termos de interacção com o tecido empresarial, o projecto Alinex tem como objectivos fomentar o desenvolvimento de empresas de base tecnológica, que possam partir de uma base sólida, sem de custos de arrranque asfixiantes, a que acrescentam valor com oferta de produtos inovadores ou serviços de manutenção e apoio.



Estas empresas, algumas delas “spin-offs” do CITI (Centro de Investigação em Tecnologias de Informação) da Universidade de Évora, terão, como mercado natural, o poder local, contribuindo para a confiança em soluções baseadas em software livre. É importante notar que para o projecto Alinex o “retorno do investimento” será primordialmente o sucesso dessas empresas e a criação de know-how nacional em TIC's. O país tem de ultrapassar o simples papel de “montador de soluções” importadas, em que os investimentos anunciados regressam de facto, na quase totalidade, aos países produtores.



Tenha-se presente que as empresas que tomam por base o Alinex e outro software livre podem comercializar produtos proprietários, se assim o entenderem. Em termos de estratégia futura, será importante que essas empresas compreendam que vivemos tempos de mudança do modelo de negócio que “vende produtos” para o negócio “que vende serviços” e em que o produto é um mero veículo para lhes aceder.



Que vantagens sublinharia para as entidades da Administração Pública optarem pelo Alinex?



Alinex

A adopção do Alinex, ou em termos mais amplos, de software livre, por entidades da Administração Pública, apresenta vantagens de vários tipos. Como já referi, e apenas numa óptica mais ou menos imediatista, a redução de custos aparece como uma vantagem facilmente apreensível. A capacidade de adaptação do software a requisitos locais constitui também uma vantagem de valor óbvio.



Mas outras vantagens podem ser apontadas. Para uma análise mais aprofundada, será interessante observar o estudo 'Open Source Software - Que oportunidades em Portugal?' desenvolvido pela APDSI. A libertação de uma “pouco saudável”, e custosa, dependência de certos fornecedores, por exemplo concretizada na imposição de novas versões de produtos em que não se percebe qual a melhoria de funcionalidade para os utilizadores, a capacidade de negociação real na aquisição de soluções informáticas, têm um valor, quiça não sentido no dia a dia, que representa uma vantagem de fundo trazida pelo software livre.



Também o aumento significativo de segurança, quer nos aspectos de imunidade a vírus, quer no conhecimento exacto do que os programas fazem (podemos ir aos sources!), a informação que transmitem ou não para outros locais, por vezes sem conhecimento do utilizador, é não só importante em termos gerais como absolutamente crucial em ambientes que manipulem informação confidencial.



O facto de se tratar de um produto nacional, aliado a algumas parcerias estratégicas com empresas portuguesas, pode constituir um trunfo para o sucesso do projecto junto do sector público?


Esperemos que sim.



Não acreditamos que surjam directivas estratégicas relativas à implantação de open source software na AP em Portugal, como muitos outros países têm feito (caso do Brasil, Índia, Espanha, China, vários países da UE, etc, etc).



Mas contamos com as boas razões que assistem o software livre, com o valor da ligação Universidade/empresas que não se fique pelos protocolos assinados que não vão além das boas intenções, com o avançar de uma geração de gente nova com capacidade de empreender, com visão internacional, e com o elevado nível tecnológico que somos capazes de ter se ultrapassarmos a “cultura dos quintais” que tem marcado o sector público nacional.

 
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