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Entrevista à Semana Informática, Dezembro de 2007

1. Depois de muitos anos em que se olhava para o open source com desconfiança as empresas portuguesas começam a adoptar o open source?


O trabalho de desmistificação dos “perigos” do open source, verificado nos últimos anos, parece começar a dar frutos. O conhecimento do que é o paradigma do open source tem evoluído, os receios de se estar perante “um modelo de negócio não sustentável” esvanecem-se e caminha-se para a postura pragmática e saudável de reconhecer as vantagens e desvantagens desta via de solução. No mundo empresarial a diminuição dos custos associados às soluções informáticas serão talvez o argumento mais importante para pensar open source, seguido da percepção da custosa dependência que se pode criar relativamente a certos software proprietários.


2. Isso é mais evidente nas grandes/médias empresas ou nas PMEs?


O reconhecimento das oportunidades do software livre tem-se generalizado a todo o tipo de empresas, independentemente da sua dimensão. Talvez as PME's dêem particular importância à ausência de custos de aquisição/licenciamentos, e as grandes empresas à dependência de fornecedores (“vendor lock-in”) que referi acima. Mas não detectamos um padrão claro.


3. Quer traçar uma evolução do sofware open source nos últimos anos?


Uma maneira interessante de medir evolução e o sucesso do opensource no mercado empresarial é analisar a reacção de alguns grandes produtores de software proprietário relativamente este “fenómeno”. Numa fase inicial algumas grandes software houses tentaram etiquetar o software livre como um exercício académico (no mau sentido) de alguns iluminados, sem qualquer valor no mundo “real”. Perante o sucesso e validade do conceito passou-se ao cultivos dos “medos e mitos”; conseguiu-se “provar” que o modelo de negócio subjacente ao open source não era ortodoxo, não era viável, não era sério. Mas o sucesso e gradual implantação continuou; a reacção foi a de campanhas publicitárias (e outras) em, por exemplo, revistas como a vossa, demonstrando que as soluções proprietárias eram melhores, com TCO's mais reduzidos. Como acto mais recente, e na sequência da aceitação crescente do software livre no mercado, houve “colagens” a esta noção; algumas empresas compreenderam que o modelo de negócio estava a evoluir da venda de produto para a prestação de serviços, outras empresas abriram o seu código, em geral com interpretações muito pessoais do que é de facto o código aberto.



4. Os números da IDC mostram que na Administração Pública há boas experiências de uso de open source, mas ainda não de forma generalizada. Qual a vossa percepção?


Não tem havido, da parte da Administração Pública, uma estratégia clara ou coerente relativamente à adopção de software livre, como se verifica em tantos países e é recomendação da Comunidade Europeia. Parece ter-se preferido um liberal “laisser faire, laisser passer”, invocando que os mecanismos de mercado e da competição livre e transparente farão vingar as melhores soluções.

Mas seria grave não percebermos que Portugal, relativamente à problemática do software livre, tem na Europa (e se calhar do Mundo) uma posição sui generis. A influência de grandes casas de software proprietário nos níveis de decisão de topo da Administração é marcada. Pense-se, a título de exemplo, no polémico processo relativo à “posição oficial do nosso país” relativamente ao OpenXML, ou no arranque da iniciativa e.escolas e.professores e.oportunidades, correntemente designada por “meio milhão de computadores para os portugueses”. Também o grau de alfabetismo informático de alguns responsáveis de alto nível, sobre esta problemática e as suas implicações estratégicas, no sentido real da palavra, é questionável.

Mas há excepções que deveriam servir de exemplo (vem-me de imediato à memória o caso do ITIJ), onde o recurso ao software livre e normas abertas é encarado e decidido pelas boas razões, com seriedade.

Curiosamente verificam-se mesmo assim iniciativas louváveis, relativamente à oportunidade do software livre na AP; ainda recentemente de verificou um evento de grande sucesso, sobre o tema, o Encontro SOL@AP promovido pelo Plano Tecnológico e pela UMIC.

Mas a base do alargamento do uso de soluções open source na AP, que é indubitavelmente crescente, tem partido de iniciativas “do nível tecnológico” das instituições fomentado pelo intercâmbio de experiências que naturalmente se verifica.



5. Para além dos sistemas operativos e servidores web as aplicações empresariais open source têm também sido adoptadas pelas empresas?

Penso que há muito se ultrapassou a ideia que o open source é Linux, Apache e Mozilla,embora estes sejam produtos emblemáticos! As empresas começam a perceber o vasto manancial de soluções de código aberto que podem adoptar: arquivos digitais de documentos, CRM's, help-desks/ticketing, gestão de bibliotecas, offices, até sistemas de bases de dados. E começam também a sentir o valor de poderem adaptar excelentes produtos às suas necessidades e não ficarem com uma caixa preta inalterável. Serão talvez os sectores de ERP (contabilidade) e recursos humanos onde se verifica ainda maior resistência aos produtos de software livre,em nome de uma aparente estabilidade das soluções; mas cremos que também aqui, provavelmente “pela mão” das PME, o software livre acabará por ser aceite.


6. Qual a vossa experiência na receptividade aos vossos produtos por parte das empresas, particulares e AP?


A Universidade de Évora disponibiliza uma distribuição Debian, o Alinex, e tem feito alguns desenvolvimentos sobre produtos de código aberto. Outros produtos distribuídos com o Alinex estão disponíveis livremente, como é natural. A nível de empresas temos verificado um interesse elevado em PME's, algumas como utilizadoras do software, outras, actuando no domínio das TIC, que vêem os produtos como uma base de partida para o seu negócio; tal é o caso de assembladores e de empresas de prestação de serviços de instalação e apoio. Por outro lado somos abordados por empresas de elevado gabarito, que reconhecendo os méritos das soluções sobre que detemos know-how, ponderam seriamente a sua adopção. Várias empresas utilizadoras da informática pretendem estabelecer-se no futuro pólo tecnológico de Évora em interacção estreita com a Universidade, sendo o software livre um dos principais elementos de atracção.

Parece-me importante ainda referir contactos concretos além fronteiras, por exemplo com Moçambique, onde se verificou grande receptividade ao Alinex e soluções de open source num evento de engenharia realizado em Novembro.


7. Os serviço - ou a falta deles - estão a ser apontados como um entrave à maior disseminação do open source, principalmente em PMEs sem estrutura de apoio informático. Qual a vossa experiência?

Os serviços de instalação, apoio, consultoria são de facto ainda vistos como “um ponto fraco” do open source. Mas a situação está a mudar, por duas ordens de razões. Existem já empresas, algumas grandes nomes da nossa praça, outras pequenas empresas, com quem se pode contratar estes tipo de serviços, e o seu número é crescente. Aliás esta área de actuação é uma interessante oportunidade para empreendedores que começa a ser explorada. Outro aspecto corresponde a ver que, para além dos contratos, existe e funciona eficazmente o apoio da comunidade de software livre, em geral com capacidade de resposta muito superior ao que um contrato clássico garante.


8. Parece-lhe que é preciso dinamizar um sector de serviços para open source em Portugal?

Claro que sim e há passos concretos nesse sentido. A a nível nacional a formação da ESOP - Associação de Empresas de Software Open Source Portuguesas – irá por certo constituir um actor importante neste sector. Em Évora, na linha de incentivo a spin-offs que prosseguimos, os serviços constituem um nicho de mercado para estas novas empresas.


9. O que é necessário fazer? Parece-lhe que a maior aposta na formação universitária é importante? Sei que a Universidade de Évora tem vindo a apostar nesta área...

Alguém ligado muito activamente ao software livre dizia recentemente que a Universidade de Évora era “a universidade com maior taxa de open source por metro cúbico". Esta afirmação enche-nos de orgulho; e mostra que o investimento neste domínio acaba por ser reconhecido e dar frutos. O Departamento de Informática da Universidade há muito que apostou no software livre como uma excelente via pedagógica; os alunos contactam com código fonte de elevado nível, podem desenvolver, a partir de uma base sólida, novas funcionalidades. Habituam-se a receber, partilhar, colaborar, “dar de volta”, não são deformados num monoalfabetismo indesejável só “com um tipo de produtos”. Acreditamos que isso contribui de facto para a inovação e empreendedorismo que não se fique pelas intenções e discursos.

E se é importante a formação universitária é igualmente essencial a formação aos níveis secundário e primário, pois é aí que se tem desde logo de transmitir os valores da saudável liberdade de escolha.




Luís Arriada da Cunha

Professor Catedrático Convidado da Universidade de Évora

Director do Centro de Investigação em Tecnologias de Informação da Universidade

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Last modified 2008-02-06 15:40